quarta-feira, 9 de maio de 2012

Os pensamentos do nem jovem nem velho Hermínio


Sem ouvir o novo chamado, Hermínio, o garçom, distraiu-se um segundo ou dois (um minuto ou mais), parado ao lado do balcão, enquanto pessoas na rua iam e vinham desavisadas, e os clientes conversavam tranqüilos ou preocupados.
Naquele um segundo ou dois (um minuto ou mais), Hermínio passeou por caminhos mnemônicos os quais não saberia explicar depois. A imagem de sua mãe dormindo seguiu-se da imagem de seu pai cozinhando um guisado, que foi seguida pela imagem de uma caixa vazia e depois de um ataque de gansos. Ele sorriu dos gansos e voltou a pensar na mãe, agora acordada, e no pai, agora almoçando, e depois na caixa, agora quebrada, e nos gansos, que nada faziam. No final daquele segundo ou dois (um minuto ou mais), Hermínio lembrou de Elisabete, a primeira mulher, e Marieta, a última, e Carla Maria, a cozinheira, e Berenice, a vizinha viúva. E como em um segundo ou dois (um minuto ou mais) cabem tantas sensações quantas são as imagens que povoam aquele vão inominável entre a pálpebra e o globo ocular quando o olho se fecha, Hermínio ainda foi capaz de lembrar de Vítor, o melhor amigo de morte precoce, Ezequiel, o faxineiro paranóico, e haveria mais, mas quando deu por si, um moço numa das mesas do fundo estalava os dedos impaciente. Hermínio apressou-se e, nessa pressa confundida com seus passos, quis entender os nexos lógicos ou ilógicos entre um pensamento e outro: por que a mãe, o pai, a caixa, por que os gansos? O rapaz pediu um expresso e a moça que o acompanhava fez que não com a cabeça, como quem chora sem ruído. Enquanto ia resolver o pedido e ninguém expressava mais vontades no estabelecimento, Hermínio continuava a analisar a deriva imagética: por que a primeira mulher dando lugar à última dando lugar à cozinheira dando lugar à vizinha viúva? E por que lembrara de Vítor, em quem não pensava quase nunca, e depois Ezequiel, moço convicto de que todos o perseguiam? Veio o expresso, Hermínio foi levá-lo ao rapaz, que agradeceu e pensou, sem que Hermínio soubesse, em uma porção de outras coisas, enquanto a moça que o acompanhava também pensava, como quem se esquecia de chorar. Nem o rapaz nem a moça inquiriam os nexos lógicos ou hiper-lógicos de seus pensamentos, e tanto fazia para Hermínio agora, que sentiu o cheiro do café.
            E no momento exato em que sentiu o cheiro do café, Hermínio se deu conta de que o que queria mesmo era sentar e tomar, ele, o seu próprio café, sozinho, quieto e solto, sem pensar.

(Para o Clube da Leitura)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Lista incompleta



Não saberia usar uma mensagem sucinta para explicar sua saudade. Não saberia usar uma frase desarrumada para improvisar um sorriso. Não saberia ficar quieta para esperar a dúvida passar.
Percebeu que não sabia muitas coisas, e aquela era a sua última lista do dia de hoje e seria a primeira a continuar completando no dia seguinte. O papel a esperaria sobre a mesa.
Depois de largá-lo dobrado, tossiu umas quantas vezes, que era o que de mais completo lhe saía da garganta. Sentiu a febre, olhou a janela e parou de pensar, por minutos a fio.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Estafa



A tristeza derivava do cansaço. Da estafa. Era assim horrível não ter energia e ter que andar. Era assim insuportável sentir as pernas doendo tanto e ter que subir as escadas de pedra e descer as rampas obrigatórias. A tristeza que sentia era imensa. E ela queria desistir. Sentar e fechar os olhos, com a cabeça apoiada nas mãos. Uma vontade de desistir de tudo. O sentimento mais lugar-comum da face da terra era rodeado por imensas massas de cansaço absurdo. Sentar e fechar os olhos e não levantar mais. Porque as coisas eram tão difíceis. Porque a luta era tão intensa. Porque era eternamente luta e justamente por isso. Alegrias cadê e onde? Ela andava alegre, bem alegre, mas naquele dia, um cansaço tomou conta de todos os sorrisos que poderia dar e eles se mantiveram presos em algum lugar da boca, dos lábios, das bochechas. Eles eram vários, mas cessaram de existir. E ela pensou, no ônibus, pois seu lugar era o ônibus: é possível que uma tristeza tão enorme seja fruto de um cansaço físico? Não conseguiu ter a resposta, mas quando saltou do ônibus, comprou aquele brigadeiro maravilhoso para ter algo a fazer com seus sorrisos em algum canto da noite.







sexta-feira, 20 de abril de 2012

Reclusão


 
Não saberia o que dizer, se tivesse que explicar a lógica interna aos acontecimentos e seus desdobramentos posteriores. Talvez não haja mesmo o que explicar, talvez a lógica seja uma ilusão, uma invenção que o olhar atribui ao objeto, uma malícia cheia de léxico que engana a todos, a artimanha maior do sofista. Talvez nada tenha explicação nessa vida, em suma. Ou pode ser que o problema seja meu, já que nunca consigo entender meus mecanismos, os caminhos em que me arremesso, nunca entendo meu humor quando acordo, às sete da manhã, nem o afeto que me acompanha quando puxo o lençol e fecho os olhos, às dez da noite. Nunca me entendo, mas posso tentar.

Minha reclusão não é algo natural em mim, mas tornou-se necessária. Hoje completam-se seis anos que me encontro em casa, onde tenho livros e cadernos. Não sei o que é pisar os pés na rua em todo esse tempo. Minha mãe não sabe o que fazer mais comigo, mas aceita minhas solicitações quanto à aquisição dos livros e à reposição do material para escrita, além de cozinhar uma refeição diária que não excede arroz, feijão, verduras, ovos e queijo. De sobremesa, quando resolvo inovar, o que é raro, uma banana, uma maçã, uma pêra. Nunca salada de frutas. Meu pai desistiu de nós dois e foi embora há muito tempo. O que há de mais regular em mim é o silêncio. Não tenho muito a dizer falando. Prefiro a escrita, e ela se esgota em mim.

Apesar das circunstâncias em que hoje me encontro, no princípio era diferente, era tudo bem diferente. Lembro, sim, de sair, de freqüentar a faculdade, lembro de uma namorada, que me aturou por exatos dois anos, lembro de que as pessoas já comentavam, com os olhos, o sorriso e a boca, que eu não passava de um excêntrico. Hoje sei que é estranho ao mundo o fato de um homem de quarenta e sete anos não sair de casa, ser sustentado pela mãe, talvez eu seja considerado um ‘parasita social’ pelos vizinhos, é possível que o síndico venha a propor como tema de pauta da próxima reunião de condomínio o entendimento de minha existência, porém uma coisa é certa: minha mãe chora toda noite antes de dormir e os soluços que ela fracassa em abafar me dizem que sou um estorvo.

Ninguém entenderá, contudo, que não posso sair e que aos poucos fui me tornando um indivíduo que não sente falta da rua, da vida social, das novidades tecnológicas que assolam o mundo. E não sinto falta porque a vida é hábito. Não fui eu quem descobriu isso, mas adoto a idéia como se de minha autoria fosse. Viver recluso em quatro paredes é questão de hábito. Não ter curiosidade é questão de habituar-se a não fomentá-la, a não precisar de fatos novos, a não querer acompanhar e formar juízos sobre a vida alheia, e comigo é assim, não quero saber o que meus colegas de faculdade fizeram de si, nem o que as pessoas em geral fazem para alcançar ou não êxito na vida. Importa-me não encontrar o mundo, porque ele me torna perigoso, porque devo expiar uma pena e redimir os erros passados, porque um dia acatei a ordem de matar uma pessoa, e a partir de então, há seis anos (e é por conta desse aniversário que escrevo esse texto ao qual ninguém terá acesso) que resolvi não me encontrar mais com o mundo, apenas comigo mesmo. Apesar de saber, desde o início, que não deveria executá-la, era impossível não acatar a ordem do que eu achava que era Deus falando em minha cabeça, era impossível. Eu sabia que, se não o fizesse, teria de conviver dia e noite com aquela voz que ora sussurrava, ora gritava, por vezes me ridicularizava, comentando todas as minhas ações e me menosprezando porque eu não era capaz de fazer algo significativo em minha vida.

À época, minha mãe já notava minha bizarria - para ela era bizarria, afinal, ela não escutava tudo o que eu ouvia. Chegou a me levar ao doutor Trajano, o psiquiatra que cuidou de sua irmã, e cheguei a tomar alguns remédios que me deixaram torto. Eu não queria aquele grau de indignidade e tampouco ficar dependente de remédios. Deixei de tomar a medicação e voltei a ouvir a voz do suposto Deus, porque o suposto Deus é implacável quando você não executa suas ordens, e ele dizia que eu deveria matar uma pessoa. E eu o fiz. Desde então, as vozes retrocederam e as ouço muito raramente. São quando elas querem gritar que venho e escrevo, é como uma catarse, e então elas somem, mas quem vai entender? Hoje sei que não era Deus que berrava ao meu ouvido, por isso estou recluso, expiando a pena. Quem poderá entender que há um castigo para mim? Os psiquiatras dirão que sou esquizofrênico, já li sobre a esquizofrenia num dos meus tantos livros. Dirão que se eu houvesse assassinado alguém, haveria provas, haveria processo, haveria cadeia ou hospital de custódia. Não me perguntem por que não houve corpo, nem cena do crime, nem investigações. Dirão que nunca matei ninguém, mas a consciência moral já não me deixar dormir e o medo de que se repita me domina diuturnamente. Apesar de todo o paradoxo que envolve meu castigo, de não poder explicá-lo nem entendê-lo (nem mesmo comprová-lo), sei que é isso o que devo fazer, cumprir minha pena e habituar-me a ela. Não há prazo para o término desse suplício íntimo.

(Para o Clube da Leitura)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Querido Sérgio (ou complete as lacunas),

Você se lembra do silêncio com que me recebia? Naqueles sábados à tarde em que chovia antes das cinco, quando a luminosidade conferia um tom estranhamente amarelado e cinzento aos móveis e paredes, quando a vida assentava de algum modo (era realmente como se todas as almas da cidade estivessem tirando a sesta) e você me dizia: ‘se importa se não houver música?, eu gosto tanto desse silêncio’. Não havia um som de fundo, nem uma televisãozinha num volume baixíssimo para fornecer um clima de preenchimento à casa, éramos só nós e nossas vozes repartidas em parcelas desiguais pelas pausas da respiração entrecortando nosso acanhado falatório. E quando nada dizíamos, nada era dito pelo ambiente tampouco. Você lembra?

Aquilo foi no seu primeiro cafofo do Méier. Você foi corajoso de sair da Igarapava e ir para a Aquidabã. Do Leblon à Zona Norte. Mas era gostoso seu apartamento, ainda que com pouco espaço. Eram aconchegantes as almofadas da sala à guisa de sofá, a máquina de lavar à vista, a televisão no chão, era o retrato fidelíssimo de todo o seu esforço. Você deixou pra trás muitas regalias e me servia um café de cafeteira que eu costumava achar um dos melhores. Você se lembra que você adoçava o café e eu costumava dizer que era a quantidade exata de açúcar que ele necessitava? Nem eu conseguia adoçar daquele modo tão preciso meu próprio café.

Depois você se mudou para a Rua do Rezende, o 404, você gostava daquele número, era o primeiro apartamento de número par de sua vida. Naquela época você andava um pouco mais rude e perturbado, algo irritadiço, era o trabalho que trazia insatisfação e vazio, mas ainda éramos capazes de não ter pressa em emitir comentários face ao que o outro dizia. Ali nossa quietude durou pouco tempo, pois quando seu irmão foi dividir o apê com você, já não podíamos deixar de falar sem sofreguidão.

Anos depois, você me recebia em Copacabana, e já quase não fazíamos silêncio, porque você se tornou voraz com as palavras, não as deixava para mim: você queria dizer tudo em uma só tarde, rodeava os mesmos assuntos em desdobramentos impossíveis, escarafunchava as dobras das possibilidades, e tudo o aborrecia, já não havia mais espera de tempos felizes, a rotina invadia os ângulos reclusos dos seus dias, e quando entardecia, antes ou após a chuva, você se queixava de angústia e de mãos frias. Você sabia que o esconderijo apaziguador do fim de semana já não estava inteiramente virgem, o domingo se aproximava e acabaria. Você chegou a dizer, certa vez: ‘tenho me tornado cada vez mais uma pessoa apavorada, aparvalhada. O que faço agora?’ E depois se levantava e colocava Novos Baianos ou Secos e Molhados, e alguma tranqüilidade finalmente se instalava.

A proximidade dos quarenta nos assustou a ambos. E os hiatos entre nossos encontros se tornaram maiores. Eu já não o reconhecia tão bem. Você se aproximou do ruído incessante que todos buscam sempre. Já não era o mesmo, e quando se mudou para Botafogo, perto dos cinemas, já não nos víamos nem mesmo de mês em mês. Os acontecimentos da minha e da sua vida se sucediam sem que pudéssemos nos acompanhar mutuamente e não fui ao seu aniversário de quarenta anos. Você sequer me ligou no meu e achei realmente que não mais o veria. A verdade é que nunca encontrei amigo igual a você e se soubesse que sua vida terminaria em breve, eu não teria sumido, não o teria deixado sumir, jamais apontaria suas mudanças como deslealdades à nossa amizade. Esses apontamentos, eu não os externava, entretanto você era adivinho e sabia, pelo meu olhar, por um jeito qualquer de eu me portar, você conhecia toda a minha reprovação. Será que você compreendia que o que eu reprovava era a sua melancolia e a sua ausência de si mesmo?

Agora não mais o tenho. E não consigo evitar, em certas tardes de sábado, repletas de umidade e estranheza, esse hábito de escrever e reescrever a você estas cartas que me distraem dessa vida de ‘complete as lacunas’. É então que posso me envolver num arremedo de silêncio que, se não é tão restaurador quanto aquelas tardes contigo, ao menos me traz descanso e conforto temporários.

Um beijo, Carla.
(Para o Clube da Leitura epistolar.)

domingo, 25 de março de 2012

A Moléstia


A moléstia de Antonio José consistia numa incapacidade de falar e respirar ao mesmo tempo. Mais do que isso: se falasse um pouco mais, se estendesse o assunto, se opinasse através de uma oração subordinada substantiva objetiva direta, digamos, ou mesmo de uma reduzida de gerúndio, que fosse, era acometido por um tal sufocamento, que tinha de ser levado às pressas ao pronto-socorro. Teve de se habituar, desde guri, a ser quieto e observador. O que mais o chateava era que as pessoas formavam sobre ele o juízo de ser antipático, amuado, desinteressante, chato, indiferente, apagadinho, sem sal, sendo apelidado, no final do ginásio, de O Nada. O Nada não podia explicar aos seus julgadores que tinha muito a dizer, porque logo perdia o fôlego. Mas, aos trinta anos, o Nada, isto é, Antonio José cansou-se de sua vida inexpressiva. Dado que a medicina não lhe oferecia a cura e a psicanálise exigia uma fala ininterrupta que ele não seria capaz de sustentar, correu atrás da hipnose mágica, de que ouviu falar e que prometia seu discurso de volta em três sessões. Na primeira, que teria durado uma hora e meia, chorou sem descanso. Na segunda, o hipnotizador contou-lhe que falou tanto, mas tanto, que após duas horas e quinze minutos ele próprio, o mestre, ficou sem ar. Na terceira sessão, ficou em silêncio durante cinqüenta minutos e, nos últimos dez, riu imotivadamente. Mas, ao final do processo, o Nada, quer dizer, Antonio José foi capaz de articular frases muito mais longas do que era capaz anteriormente e o mago da hipnose não lhe contou de jeito nenhum, por mais que Antonio José suplicasse, o segredo de sua cura.

Nosso enfermo teria motivo de estar contentíssimo se não fosse pelo fato de que, a partir de então, passou a sofrer de uma falta de ar ainda mais severa mas que se instalava quando ficava alguns minutos sem falar, exceto quando dormia. Antonio José já não podia ir ao cinema, a concertos de música e a enterros, pois interrompia-os todos no intuito de não desmaiar de asfixia. As pessoas não mais o chamavam de O Nada, mas o evitavam sempre que podiam e o chamavam agora de falastrão, tagarela, cricri, chato, fofoqueiro etc etc etc. O pior de tudo é que quando Antonio José recorreu ao seu hipnotizador, ele apenas disse que não podia agradar a gregos e a troianos e que O Nada teria de escolher entre a eloqüência involuntária atual ou a mudez de tempos atrás. Ou, uma terceira opção, mais arriscada: submeter-se à hipnose dupla de seis sessões e ver em que canto de sua existência iria se alojar aquela asfixia recorrente. Sem antever outra saída, o Nada apenas disse: “Marquemos então a primeira sessão”, e saiu falando sozinho, para não perder o ar.

(Conto para o Clube da Leitura de 13 de marco de 2012.)

sexta-feira, 9 de março de 2012

A volta do verão (para o Clube da Leitura da Volta)


Naqueles anos de 2010 a 2030, muito havia mudado nas cidades, na cultura e especialmente no clima. Já se falava, próximo a 2012, que o mundo acabaria, mas, em 2012, o mundo persistiu em sua existência.

O que causou espécie, entretanto, foi o fato de que algo começou a mudar no clima da cidade do Rio de Janeiro de modo mais marcante. O verão se iniciara tarde e as águas de março chegaram pontualmente, trazendo frio e exigindo o uso de cachecol e meias de lã na cidade. Ainda não era outono e todos já percebiam que o frio se embrenhava nos orifícios de seus ossos, fazendo com que se recolhessem mais cedo em suas casas. Os chás, os chocolates quentes, tudo que trazia um pouco mais de calor àqueles buraquinhos dos ossos e das malhas de lã, foram se proliferando entre os cariocas, desacostumados às baixas temperaturas. Não é preciso dizer que o frio se intensificou ainda mais nos meses pertinentes. Em junho, por exemplo, a temperatura ficou próxima do zero no dia de São João, o que era fato raríssimo. Na região serrana, em alguns pontos isolados, deu no repórter que nevou. Noticiava-se a morte de mendigos nas esquinas. Nunca se vendeu tanto edredom como naquele ano.

O mais estranho de tudo – e isso os frequentadores de um sebo na Zona Sul da cidade, que se reuniam quinzenalmente para ler e escrever em conjunto comentavam com vividez em suas rodas de cerveja e chopp que se transformavam agora em rodas de chocolate quente e lareira na serra – foi que no final de 2012 e nos anos seguintes não houve verão. As confecções de roupas de praia chiaram, sem ter o que fazer. Cangas, chapéus de praia, protetores solares perderam a serventia. Janeiro não teve sol e as águas de março já não fechavam verão algum. Assim os anos correram, sem que os cariocas pudessem experimentar novamente o calor de 40 graus à sombra. Moradores de Bangu, onde era usual dar a máxima temperatura, e onde já se fritou um ovo no asfalto da Av. Ministro Ari Franco, puderam se sentir um pouco mais aliviados. O sufocamento causado por temperaturas acima dos 40 graus tornou-se quase uma lenda urbana. As pessoas se lembravam com nostalgia do tempo em que o verão existia. Os frequentadores do clube da leitura levavam para seus encontros ensaios, entrevistas, reportagens que giravam em torno da existência de figuras mitológicas de veraneio, mas muitos lembravam-se de férias na praia e juravam que aquilo tudo – calor, suor, vontade de praia, ar condicionado – existira com vigor há poucos anos atrás. Mas muitos já se esqueciam, tanto quanto já não se recordavam do tempo em que não havia a internet, o facebook e o twitter.

O assunto da mudança climática era o tema principal nos telejornais. Os meteorologistas nada entendiam e forjavam teses que mal e mal explicavam os destemperos do clima carioca. Ecologistas bradavam culpas, responsabilidades, medidas urgentíssimas. Os frequentadores do sebo de Copacabana escreviam contos cujos motes eram a vida invernal, as catástrofes climáticas, a vida interplanetária.

Foi somente no ano de 2032, que, em outubro, quando ninguém mais se lembrava o que era o horário de verão – extinto por decreto em 2014 – um calor abrasador se fez como há muito não se via. No jornal, anunciaram o dia mais quente do ano na cidade: 33 graus. O dia seguinte repetiu o calor e os cariocas correram às praias, comprando biquínis e sungas às pressas. Tinham de aproveitar aquela exceção climática que há muito não constatavam. As praias lotadas foram motivo de comemoração. Os frequentadores do sebo na Zona Sul marcaram um encontro quinzenal no quiosque na praia. Quando ninguém esperava, o verão chegou antecipado. O chão das ruas pelava, Bangu deu a máxima novamente. Foi anunciada finalmente a tão esperada volta do verão, que os clubinos-da-leitura, que se reuniam há quase 25 anos, agora mais idosos e experientes, comemoraram no dia 31 de janeiro de 2032, quando retornaram do recesso de fim de ano para ler seus contos coletivamente, no mesmo sebo, em Copacabana, colocando a temperatura do ar condicionado da loja no máximo e marcando o próximo encontro, excepcionalmente, de dia, em Ipanema, embaixo de alguma barraca, de preferência no Posto 9.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Alice de todos nós

Alice saiu correndo do conto da Danielle e caiu no conto do Guilherme. Por uma semana, ela queria viver de facebook. Ter amigos virtuais, conversas de chat, comentários sucintos sobre tudo e sobre coisa alguma, rodear-se de audiovisual no interior de seu micro-apartamento de 27 metros quadrados e mais um terço. Deixou pra lá as indecisões, as inspirações, as aspirações, deixou pra lá o que não se concluía para tirar muitas conclusões, todas elas via twitter de preferência. Queria ver os vídeos de youtube que adiara por meses, queria tirar a semana para si, seleta em seu tubo com ar condicionado, ao som de Tim Maia 1973.

Após uma semana, saiu correndo do conto do Guilherme e caiu novamente no conto da Danielle, porque queria agora alguma paz, e a sutileza de quem aguenta o descanso, de quem insiste na intimidade. Mas tinha saudades de seu autor anterior. Queria ser de ambos: de Danielle e de Guilherme.

Ficou sabendo, entretanto, que havia a Vivian. Alice quis experimentar um conto da Vivian, como seria? Seria indeciso, seria angustiado, seria lancinante? Saiu correndo novamente do conto da Danielle (o coração apertado), pegou a primeira à esquerda (a primeira à direita daria em Guilherme, e essa vereda ela já conhecia, intencionava novidades, ainda que poucas e dosadas) e caiu na Vivian, que não a deixou em paz um segundo sequer. Com a Vivian era assim, ela não dava uma trégua. Não passou dois dias e fugiu novamente, mas até que gostou, de longe.

Nostálgica de Guilherme, nostálgica de Danielle, ainda assim queria uma labareda na qual já não houvesse se queimado, uma umidade em que não tivesse escorregado. Pensou rapidamente, tentou se lembrar de todas as querelas anteriores que um dia acalentou, até ter o insight! Não, o que lhe convinha, agora e não depois, seria um quadrinho do Johandson! Ela queria o colorido de sua caricatura estampada qual espelho, precisava se ver de longe e de perto e entender-se eternamente, pois só nos traços de um desenho conseguiria levitar. O que Alice agora almejava era a rapidez e a graça boba, o pinote pintado. Queria mais de setenta curtis e uns quinze compartilhamentos.

(Essa postagem é de Johandson, é de Danielle Schlossarek e é também de Guilherme Preger.)