Não saberia o que dizer, se tivesse que explicar a lógica interna aos acontecimentos e seus desdobramentos posteriores. Talvez não haja mesmo o que explicar, talvez a lógica seja uma ilusão, uma invenção que o olhar atribui ao objeto, uma malícia cheia de léxico que engana a todos, a artimanha maior do sofista. Talvez nada tenha explicação nessa vida, em suma. Ou pode ser que o problema seja meu, já que nunca consigo entender meus mecanismos, os caminhos em que me arremesso, nunca entendo meu humor quando acordo, às sete da manhã, nem o afeto que me acompanha quando puxo o lençol e fecho os olhos, às dez da noite. Nunca me entendo, mas posso tentar.
Minha reclusão não é algo natural em mim, mas tornou-se necessária. Hoje completam-se seis anos que me encontro em casa, onde tenho livros e cadernos. Não sei o que é pisar os pés na rua em todo esse tempo. Minha mãe não sabe o que fazer mais comigo, mas aceita minhas solicitações quanto à aquisição dos livros e à reposição do material para escrita, além de cozinhar uma refeição diária que não excede arroz, feijão, verduras, ovos e queijo. De sobremesa, quando resolvo inovar, o que é raro, uma banana, uma maçã, uma pêra. Nunca salada de frutas. Meu pai desistiu de nós dois e foi embora há muito tempo. O que há de mais regular em mim é o silêncio. Não tenho muito a dizer falando. Prefiro a escrita, e ela se esgota em mim.
Apesar das circunstâncias em que hoje me encontro, no princípio era diferente, era tudo bem diferente. Lembro, sim, de sair, de freqüentar a faculdade, lembro de uma namorada, que me aturou por exatos dois anos, lembro de que as pessoas já comentavam, com os olhos, o sorriso e a boca, que eu não passava de um excêntrico. Hoje sei que é estranho ao mundo o fato de um homem de quarenta e sete anos não sair de casa, ser sustentado pela mãe, talvez eu seja considerado um ‘parasita social’ pelos vizinhos, é possível que o síndico venha a propor como tema de pauta da próxima reunião de condomínio o entendimento de minha existência, porém uma coisa é certa: minha mãe chora toda noite antes de dormir e os soluços que ela fracassa em abafar me dizem que sou um estorvo.
Ninguém entenderá, contudo, que não posso sair e que aos poucos fui me tornando um indivíduo que não sente falta da rua, da vida social, das novidades tecnológicas que assolam o mundo. E não sinto falta porque a vida é hábito. Não fui eu quem descobriu isso, mas adoto a idéia como se de minha autoria fosse. Viver recluso em quatro paredes é questão de hábito. Não ter curiosidade é questão de habituar-se a não fomentá-la, a não precisar de fatos novos, a não querer acompanhar e formar juízos sobre a vida alheia, e comigo é assim, não quero saber o que meus colegas de faculdade fizeram de si, nem o que as pessoas em geral fazem para alcançar ou não êxito na vida. Importa-me não encontrar o mundo, porque ele me torna perigoso, porque devo expiar uma pena e redimir os erros passados, porque um dia acatei a ordem de matar uma pessoa, e a partir de então, há seis anos (e é por conta desse aniversário que escrevo esse texto ao qual ninguém terá acesso) que resolvi não me encontrar mais com o mundo, apenas comigo mesmo. Apesar de saber, desde o início, que não deveria executá-la, era impossível não acatar a ordem do que eu achava que era Deus falando em minha cabeça, era impossível. Eu sabia que, se não o fizesse, teria de conviver dia e noite com aquela voz que ora sussurrava, ora gritava, por vezes me ridicularizava, comentando todas as minhas ações e me menosprezando porque eu não era capaz de fazer algo significativo em minha vida.
À época, minha mãe já notava minha bizarria - para ela era bizarria, afinal, ela não escutava tudo o que eu ouvia. Chegou a me levar ao doutor Trajano, o psiquiatra que cuidou de sua irmã, e cheguei a tomar alguns remédios que me deixaram torto. Eu não queria aquele grau de indignidade e tampouco ficar dependente de remédios. Deixei de tomar a medicação e voltei a ouvir a voz do suposto Deus, porque o suposto Deus é implacável quando você não executa suas ordens, e ele dizia que eu deveria matar uma pessoa. E eu o fiz. Desde então, as vozes retrocederam e as ouço muito raramente. São quando elas querem gritar que venho e escrevo, é como uma catarse, e então elas somem, mas quem vai entender? Hoje sei que não era Deus que berrava ao meu ouvido, por isso estou recluso, expiando a pena. Quem poderá entender que há um castigo para mim? Os psiquiatras dirão que sou esquizofrênico, já li sobre a esquizofrenia num dos meus tantos livros. Dirão que se eu houvesse assassinado alguém, haveria provas, haveria processo, haveria cadeia ou hospital de custódia. Não me perguntem por que não houve corpo, nem cena do crime, nem investigações. Dirão que nunca matei ninguém, mas a consciência moral já não me deixar dormir e o medo de que se repita me domina diuturnamente. Apesar de todo o paradoxo que envolve meu castigo, de não poder explicá-lo nem entendê-lo (nem mesmo comprová-lo), sei que é isso o que devo fazer, cumprir minha pena e habituar-me a ela. Não há prazo para o término desse suplício íntimo.
(Para o Clube da Leitura)