sábado, 12 de dezembro de 2009

era melhor

Era melhor não conhecer as pessoas, não falar com elas, era melhor não saber de suas existências e suas vidas e suas idéias. Era melhor ficar fechada num quarto, não sair e apenas respirar, respirar. Era melhor não se envolver, não esperar uma coisa e ter outra, não achar que aquilo que se vê é aquilo que é. Aquilo que se vê talvez não seja aquilo que é. Aquilo que se é talvez não seja absolutamente nada.

Era melhor então pegar uma poesia de Fernando Pessoa e lê-la em voz alta e depois um parágrafo da Clarice Lispector e lê-lo chorando e depois um página inteira do Jonathan Safran Foer e gritar. Era melhor apenas ler. Era melhor apenas ver um filme e depois outro e depois outro. E colocar uma música clássica, quem sabe o Adágio de Albinoni, e se deixar levar por notas, acordes, harmonias, mas sem ver ninguém. E respirar depois. E se deitar. E não sair mais de casa, não encontrar as pessoas nas ruas laterais, nas filas de cinemas, nos congressos universitários, nos sinais de trânsito. E não saber o que te faz sofrer, e te faz sofrer muita coisa que está do lado de fora da porta da rua.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ruídos

- Oi.
- Oi.
- E aí?
- E aí pergunto eu: e aí?
- Queria te ver...
- Ah, sim, era isso?
- E te ouvir...
- Sei.
- Te cheirar, talvez.
- Realmente, você não tem jeito.
- Te tocar, na verdade. Assim: - sua mão pousou delicadamente sobre a dela. Ela não retirou a sua. Apenas olhou o gesto e as duas mãos, estáticas. A sua estava fria. A dele, quente. Suas mãos costumavam ser frias. Era seu destino ter as mãos frias. Por isso tinha luvas. E mais luvas. E mais luvas. Continuou olhando os dedos dele, até que sua voz a retirou da pura percepção: - Tudo bem?
- Tudo indo.
- Comigo também.
- A gente se enrosca nos eventos da vida, né? Nos acontecimentos. Nas pessoas que aparecem a torto e a direito aqui, ali, lá, acolá, nas ruas paralelas, nas transversais, nas ladeiras e escadarias, na Tijuca, na Lapa e em Copacabana. A gente se enrodilha na multueira de coisas que vão acontecendo umas atrás das outras e vai vivendo. De repente, esqueci que você existe. Mas lembro toda tarde.
- Eu idem. Também me enrosco. E me enrodilho. E me confundo. É tanta coisa, né? Tanta imagem e tanta gente falando e tanta palavra que se ouve e tanto barulho de carro e buzina e guarda apitando... A vida é barulho. Mas lembro de você toda tarde, apesar de não saber mais muito bem de que luzes e sombras seu rosto é feito. A vida é barulho e eu esqueço as imagens.
- Eu prefiro o silêncio.
- Eu prefiro o inverno.
- Eu prefiro a solidão. Mas nem sempre.
- Nem sempre...
- Por onde você anda, afinal?
- Você nem queira saber...
- Mas, olha, tem certos momentos em que eu daria muito pra saber o que aconteceu com você após todos esses anos. Já se vão quantos? Seis?
- Quase seis anos.
- Mudou alguma coisa dentro de você nesse tempo? E aquela barba enorme com trança, você ainda a cultiva? Quanto a mim, muito mudou e muito permaneceu. E não sei se o que mudou era o essencial a ser mudado. Mas sabe: não sou mais aquela de seis anos atrás. Ali eu era jovem e tinha mais vontade. Mais sonhos. Não sou velha, e nem você. Mas eu era outra e esperava outras coisas. Outros pensamentos eu tinha, planos diferentes dos que tenho hoje, frustrações menores, outro temperamento também. Você lembra como eu brigava? Ah, mas eu brigava...
- Você é de câncer, né? Todo canceriano é meio arretado. De alguma forma, tantas brigas nos separaram, mas gosto de você até hoje e rio daquelas brigas quando, à tarde, naquele momento diário que não existe bem, me recordo de alguma particularidade sua. Você sabe disso. Você leu isso.
- Eu talvez tenha lido isso em você, mas já fazem quatro anos. E as páginas viram. A vida é barulho e eu esqueço as palavras.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

tapando os ouvidos

De início ela não sabia porquê, mas precisava sair correndo dali. Deixar pra trás o quanto antes aquele lugar, que era compacto, pesado, concreto, quase que o ar do ambiente comprimia sua pele. Já na rua, o suor abundante fazia com que sentisse sua camisa molhada e algumas gotas escorrendo pelas costas. Ela precisava se distanciar ao máximo dali, pois ainda conseguia ouvir os ecos, os ecos! Aqueles ecos transtornavam sua audição e deixavam um zumbido rastejando atrás. Doía-lhe a cabeça, bem ali na altura da nuca. Colocou a mão no local da dor e massageou de leve. Tinha que ir embora daqueles zumbidos e ecos, esconder-se de modo enroscado atrás de alguma moita plausível. É que as opiniões daquele garoto que não passava dos vinte e seis anos invadiam-lhe e achatavam qualquer senso de compreensão e paz, provocavam rupturas sucessivas em qualquer cadeia de pensamento que ousasse forjar sozinha e não compartilhar com nenhuma outra alma. Ele desmontava seus elos! Queria estar ao menos uma vez retilínea consigo mesma, aprumada num certo eixo de silêncio, mas eram opiniões invasivas e definitivas, e aquelas opiniões, todas juntas e intrincadas, expulsavam-na de si e de qualquer outro suporte. Por isso - agora, a posteriori, ela era capaz de enxergar - ela precisara sair correndo dali, catando os cacos que, atados, impediriam que se espalhasse sem retorno. E o pior é que continuava precisando se distanciar, pois tinha medo de que aqueles ecos a alcançassem e provocassem novas e irreversíveis rachaduras. Estava agora a quatro quarteirões, mas ainda sentia o cheiro de tantas idéias tão bem amarradinhas. Era tudo muito certeiro no modo como ele, de não mais que vinte e seis anos, organizava suas idéias. E ele falava alto, com aquele tom meio afeminado que lhe era característico, com aqueles gestos meio bamboleantes que eram inconfundíveis nele, com aquele lápis no olho que se sabia muito bem que havia usado. Não, não, não! Ela queria sair dali e agora se encontrava a seis quarteirões daquele recinto onde não cabia mais voz nenhuma, que dirá seu corpo. Era tudo final, correto e sem dúvidas na forma como aquele rapaz dizia o que achava e ela não agüentava, não suportava, ela não queria mais ouvir!

domingo, 6 de dezembro de 2009

breve reflexão

Reflexão: gênio é aquele que tem bom coração. O que é um raridade. Burro é aquele que faz livros sobre religião e chama de burro quem não gosta de um determinado filme. E aquele que se autoproclama gênio está longe de sê-lo. Os poucos gênios que conheci não se diziam gênios. Diziam o contrário: a idéia não é mais minha, está no ar agora, é de todos. Isso é genialidade. Pior: os que ovacionam o suposto gênio criam uma farsa e só contribuem para o ego inflado e futuros sofrimentos do falso gênio. Dói-me ver o suposto gênio que cita Jung mas faz tudo ao contrário. Como são tolos e idiotas os que consideram gênio aquele que não é. Estão na mesma roda de ilusão: o admirador idiota e o falso gênio orgulhoso do que não tem.

Até quando?

O Carlinhos foi recolher a louça e passar um pano na mesa 4 e deu de cara com aquele papel dobrado com minúcia e zelo. Olhou para os lados, ressabiado. Não parecia lixo. Alguém esquecera um documento. Olhou para os lados, ressabiado. Recolheu o papel e levou a louça para a cozinha. Na volta, foi atender a mal-humorada da mesa 8, que queria agora um bolo de laranja. Olhou para os lados, ressabiado. Meteu o papel no bolso, curioso, ansioso. Levou o bolo de laranja. Aturou as grosserias. Quis meter-lhe a mão na cara, estapear aquela velha, espalhar suas rugas pelo chão inteiro do café, distribuir sua idade mal-amada por todos os cantos do lugar e destroçá-la em pedacinhos diminutos, para, no final das contas, ser aplaudido de pé e ruidosamente. Olhou para os lados, ressabiado. Sentiu o volume do papel apalpando a calça na altura do bolso. O casal da mesa 1 pediu a conta. Olhou para os lados, ressabiado. Queria superfaturar aquela conta e levar uns quinze reais pra casa. Lembrou de Joana. Grávida de seis meses. Vinte anos. Lembrou de seu salário, sua família, seu futuro. Olhou para os lados, ressabiado. Por que ela não tirara a criança? E aquele papel, dobrado em seu bolso? Pediu a conta da mesa 1 para o Orlando e depois levou para o casal, que contou moedinhas, e ele teve vontade de ajudá-los com seu ordenado. O casal se levantou decente e a coroa da mesa 8 fez novo sinal. Olhou para os lados, ressabiado. Não queria ouvir a voz da coroa chata mas foi até ela, respirando fundo, ressabiado. Desconfiado. Mal-humorado, ele também. Queria retorcer aquela voz e arrebentá-la de um puxão, dar um soco naquele nariz proeminente e espirrar sangue para todos os lados, ressabiado. Ser ovacionado. Foi até ela. A mulher tinha a voz rouca, remela nos olhos, gorduras sobrando. Reclamou do bolo. Reclamou do café. Reclamou do atendimento. Reclamou da vida. Ele escutou, afastou-se, fechou as mãos com força, foi até a mesa 5, anotou os pedidos, voltou, foi novamente chamado, escutou os clientes, levou café, levou chá, levou coca-cola, levou pão de queijo, levou torradas, levou a conta, olhou para os lados ressabiado, sentiu o papel no bolso, coçou a cabeça, riu com o Orlando de um cara engraçado que lia um livro no canto do café, levou mais contas e mais cafés e distribuiu mais tapas nos chatos que o perseguiam, ressabiado, encafifado, irritado, engajado em reprimir o seu mal-humor, e no dia seguinte também, acordando cedo, pensando em Joana, pensando no filho, pensando na vida, levando cafés, limpando mesas, aturando grosserias, todos os dias, e no fim do mês o salário, e ele então lembrou que esquecera um bilhete dobrado no bolso da calça (que Carlinhos só lavava de quinze em quinze dias ou mais para economizar sabão em pó), abriu-o no ônibus no caminho para o café na Zona Sul, pela longa trilha de uma hora e meia da Av. Brasil, olhou para os lados, ressabiado, e todos dormiam, menos ele, quando então pôde ler: 'Até quando as coisas vão continuar como estão?'. E ele já não sabia mais se fora outra pessoa ou se fora ele mesmo que escrevera aquele bilhete, ressabiado.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Tentei falar mais de uma vez

Tentei falar mais de uma vez.

O rapaz de barba comprida e cabelo alourado deu com aquele escrito na mesa de bar, onde tomava uma cerveja, sozinho. A letra era cuidadosa. E o papel havia sido dobrado de forma igualmente cuidadosa. Alguém esquecera uma aviso? Uma ameaça? Sim, aquele tom era de ameaça. 'Tentei falar mais de uma vez' é quase um dedo indicador apontado na cara, e seguido ainda de um 'ouviu bem?' emitido em voz esganiçada e carregada de ódio. Ele tinha certeza de que aquela era uma ameaça, pois não havia assinatura, o que era típico das ameaças que querem constranger o indivíduo a não sair mais de casa, a olhar para trás ao virar cada esquina, a observar bem, da janela, o movimento da rua e a averiguar o estacionamento antes de pegar o carro. Era estranho aquilo, mas para quem seria a mensagem? Para ele, talvez? Mas como poderia ser para ele? Quem escreveria aquilo? Se ele nunca passava por aquela rua e jamais entrara naquele boteco de quinta categoria, não podia ser para ele, pois o bilhete, muito bem dobrado, exalando até mesmo um certo perfume indefinível, suave e agradável, já estava lá, sobre o balcão, e ele só o notou após pedir a cerveja ao vendedor. Não, não podia ser para ele. Mas para quem? E de quem? E por quê?

Chamou o moço:
- Por favor, isso aqui é seu? - e mostrou o papel.
O moço olhou para o escrito com aquelas sobrancelhas de quem está tentando entender o objeto. A gestalt ainda não havia sido formada.
- Sei não.
- Você não sabe se é seu?
- Não-sei-o-que-é-isso-não-senhor.
- E quem deixou aqui?
Novamente as sobrancelhas, novamente uma interrogação rodopiando ao redor da testa daquele homem com a cara cansada de quem trabalhava até altas horas todo dia.
- Não-sei-não-senhor.
E depois disso ele desistiu de perguntar. Examinou novamente o bilhete, virando-o pelo avesso, aproximando-o do nariz, ampliando a capacidade de entendimento de seu olfato e, cada vez mais, achando que aquele bilhete, por mais misteriosa que fosse aquela convicção, era endereçado para ele mesmo e ninguém mais.
Ele, então, pensava: e o que foi que tentara - o remetente do pequeno recado - falar mais de uma vez?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

recados

Maria resolveu deixar bilhetes. Para o mundo. Assim, como quem não quer nada, querendo mais coisa do que se possa imaginar. Ela não identificava bem o que queria e o que não queria, mas ausência de desejo não era com ela.

Começou num café. Após tomar o expresso e passar o guardanapo nos lábios, deixou sobre a mesa, dobrado em quatro partes, um papel reciclado que dizia: "Até quando as coisas vão continuar como estão?". Levantou-se e saiu. Alguém leria aquele bilhete. E resolveu começar com bilhetes com esse teor: mensagens que lhe pareciam universais, que suspostamente valeriam pra todo mundo, que fariam sentido para qualquer um. Tanto quanto as mensagens de horóscopo de jornal.

No dia seguinte, deixou sobre o balcão de um bar, novamente após um expresso, novo papelzinho. O bilhete dessa vez dizia: "Tentei falar mais de uma vez".

No outro dia, escolheu um banco de praça muito freqüentado por crianças e velhinhos, além das mães. No papel, que ali depositou, era possível ler: "Nem sempre os dias são normais".

Depois de abandonar aqueles recados sem destinatário preciso, passava longos momentos imaginando quem os teria lido e o que teria pensado seu leitor. Se havia jogado fora ou deixado para o próximo. Se havia pensado sobre o assunto do bilhete por mais de um segundo ou se o esquecera por completo. Se havia se perturbado ou se nem se afetara. Seu objetivo não era uma interferência artística insuportável, nem uma perfomance silenciosa com sujeito oculto. Ela queria apenas se comunicar. Criar uma ponte qualquer com o qualquer um e imaginar quaisquer conseqüências que surgiriam posteriormente, se é que haveria alguma. E após algumas semanas deixando bilhetes supostamente universais, começou a inventar o que não parecia tão lógico a príncipio.

Na mesa do restaurante, onde almoçou solitariamente na segunda, na terça, na quarta, na quinta e na sexta, deixou: "Moscas incandescentes entraram pela direita". E no metrô, ao lado da bilheteria, deixou: "Botões escandinavos sabem bem a regra certa. Pergunte a eles.". Na caixinha do correio do vizinho do 103, o recado que entregou dizia: "As horas não se sucedem a todo instante". E assim foi ampliando os bilhetes, sofisticando o conteúdo das mensagens, enredando-se na filosofia da carta incomum, com apenas uma preocupação.

É que quando ia dormir à noite, a única coisa que afligia Maria era a idéia de que ninguém encontrasse seus bilhetes.

domingo, 22 de novembro de 2009

A madrugada do órgão

O coração anda amolecendo, e não é por compaixão, dó ou covardia. Ele perde o vigor, e anda encurvado, quase encosta o chão, quase sente sua poeira e suas gosmas, arrasta-se pesado nas cavidades do tórax (ou do abdômen?), migra de lá pra cá buscando solucionar uma claustrofobia que vem recrudescendo, percebe as reentrâncias do solo - o solo das vísceras - como nunca antes, bamboleia, diminui, empalidece: a tonteira se aproxima desse músculo avermelhado. Está despencando.